Visita
oficial ao Brasil do Ministro de Assuntos Exteriores da Índia, Dr. Yashwant Sinha
- Comunicado Conjunto
A convite do Ministro das Relações Exteriores do
Brasil, Embaixador Celso Amorim, o Ministro de Assuntos Exteriores da Índia, Dr. Yashwant Sinha,
está realizando visita ao Brasil de 4 a 8 de junho de 2003. Durante a visita, o
Ministro de Assuntos Exteriores manteve conversações com o Ministro das
Relações Exteriores, Embaixador Celso Amorim, e o Ministro da Saúde, Senhor
Humberto Costa, e também visitou o Senhor Presidente da República, Luiz Inácio
Lula da Silva, a quem fez entrega de convite do Senhor Abdul
Kalam, Presidente da República da Índia, para visitar
seu país no começo de 2004.
2. Os Ministros registraram que a visita se realiza logo após o encontro
mantido pelo Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o Primeiro- Ministro da Índia, Atal Bihari Vajpayee, em Lausanne, na Suíça, no último dia 2
de junho.
3. A visita do Ministro Sinha realiza-se em um
momento de profundas transformações nas relações internacionais, dando ensejo à
troca de idéias sobre variados assuntos da agenda mundial entre os Chanceleres
e permitindo explorar novas oportunidades de cooperação bilateral.
4. O Brasil e a Índia são países em desenvolvimento de ampla dimensão
territorial. Enfrentam desafios semelhantes em termos econômicos e sociais.
Compartilham pontos de vista similares sobre o sistema internacional e aspiram a maior participação nas decisões políticas,
econômicas e financeiras mundiais. Com base em visões e desejos comuns, Brasil
e Índia almejam desenvolver e aprofundar a estreita cooperação e consulta que
já mantêm nos foros internacionais.
5. O Brasil e a Índia estão entre as maiores democracias do mundo. Ao mesmo
tempo em que tratam de desenvolver e aprimorar suas instituições democráticas
no plano interno, aspiram a que a democracia
prevaleça, igualmente, na ordem internacional. Nesse contexto, os Ministros
ressaltaram o papel central das Nações Unidas na preservação da paz e da
segurança internacionais. Sublinharam, ainda, a necessidade de estrita
observância da Carta das Nações Unidas e dos princípios e normas do Direito
Internacional.
6. Brasil e Índia concordaram que o funcionamento das Nações Unidas deveria ser
mais democrático e que o Conselho de Segurança deveria ser ampliado para ser
verdadeiramente representativo dos membros das Nações Unidas. Os países em
desenvolvimento, que representam a grande maioria dos membros da Assembléia
Geral da ONU e têm um papel cada vez mais proeminente nos assuntos mundiais,
deveriam estar integralmente representados na categoria de membros permanentes
no Conselho de Segurança reestruturado. Eles também concordaram que a reforma e
a ampliação do Conselho de Segurança deveriam ser parte de uma só iniciativa.
Expressaram a opinião que países como Índia e Brasil são candidatos naturais a
um assento permanente no Conselho de Segurança reestruturado. Também crêem que
isso deverá ter um efeito positivo sobre os esforços de criação de uma ordem
mundial pacífica, justa e igualitária e tornará o Conselho de Segurança mais
representativo, efetivo e legítimo.
7. Brasil e Índia afirmaram a necessidade de respeitar a soberania e a
integridade territorial do Iraque. Concordaram que as Nações Unidas deveriam
ter um papel importante e tomar rapidamente decisões a respeito da
estabilidade, segurança e reconstrução do país. A situação humanitária deveria
ser levada em consideração para ir ao encontro das necessidades do povo
iraquiano, que deveria ser capaz de decidir sobre o governo que escolherem o
mais cedo possível. Nesse sentido, manifestaram apoio ao papel
do Secretário-Geral das Nações Unidos e seu Representante Especial no
Iraque e aos esforços multilaterais sob os auspícios das Nações Unidas que
visam à adoção de medidas urgentes para minorar o sofrimento da população
iraquiana.
8. Os Ministros expressaram seu repúdio a todas as formas de terrorismo, que
constitui nova e grave ameaça à paz e à segurança internacionais. Manifestaram
também sua disposição de combater o tráfico de drogas e o crime organizado e
apontaram a necessidade de continuar o exame urgente de medidas de repressão e
prevenção desses fenômenos, com base nas características específicas de cada
país e no Direito Internacional.
9. No tocante ao desenvolvimento econômico, os dois
Chanceleres expressaram a necessidade de adoção de políticas públicas
que contemplem a modernização de suas respectivas economias e o atendimento às
legítimas demandas sociais de seus povos. Ressaltaram a necessidade de que os
países desenvolvidos adotem, nas negociações comerciais no âmbito da
Organização Mundial do Comércio e nas negociações regionais, posturas que
promovam a liberalização do comércio em bases justas e não-discriminatórias e
que venham a corrigir as assimetrias existentes. Da mesma forma, concordaram em
que as resoluções da Conferência Internacional de Desenvolvimento Financeiro,
realizada em Monterrey em 2002, devam ser
implementadas.
10. Os Ministros reafirmaram o compromisso de seus países com o desenvolvimento
sustentável e, em particular, com os objetivos da Agenda 21, acordada durante a
Conferência do Rio em 1992, bem como com seu Plano de Implementação, adotado
durante a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável realizada em 2002 em
Joanesburgo. Manifestaram, ainda, sua esperança de
que o Protocolo de Quioto à Convenção-Quadro das
Nações Unidas sobre Mudança do Clima entre em vigor proximamente e possa contar
com a participação do maior número possível de países.
11. O Brasil e a Índia reiteraram seu firme empenho na implementação efetiva
dos princípios contidos na Convenção sobre Diversidade Biológica, a saber, a
conservação da biodiversidade, o uso sustentável dos seus componentes e a justa
repartição de benefícios que advenham da utilização dos recursos genéticos e
conclamaram à cooperação para permitir a todos os
países proteger e usar sustentavelmente a sua biodiversidade para o benefício
da humanidade. Ressaltaram, ainda, a necessidade de adequar o Acordo TRIPS à
Convenção de Diversidade Biológica, bem como a prioridade que dão à negociação
de um regime internacional para promover e salvaguardar a justa e equitativa repartição de benefícios, provenientes da
utilização de recursos genéticos, no âmbito da mesma Convenção, conforme
concordado na Cúpula de Joanesburgo. Nesse sentido,
as atividades do Grupo dos Países Megadiversos Afins,
de que Brasil e Índia são fundadores, devem ser aprofundadas.
12. Os dois Chanceleres expressaram satisfação pela aprovação, no âmbito da
Organização Mundial da Saúde, em maio de 2003, da Convenção-Quadro para o
Controle do Uso do Tabaco. Comprometeram-se igualmente a envidar esforços para
acelerar o processo de ratificação nos respectivos países, bem como o de
entrada internacional em vigor, no mais curto prazo.
13. Na agenda bilateral, manifestaram satisfação com o
inédito aumento do intercâmbio comercial nos últimos anos, que alcançou, em
2002, o total de US$ 1,2 bilhão. As estimativas de crescimento para o corrente
ano são da mesma forma animadoras. As exportações não apenas aumentaram, como
também se diversificaram. Os dois Ministros referiram-se à possibilidade da
venda, em futuro próximo, de aeronaves da Embraer para o Governo indiano, o que
abre perspectivas de cooperação no setor aeroespacial. Da mesma forma,
registraram com satisfação a contribuição da indústria farmacêutica indiana com
medicamentos de alta qualidade e preços competitivos ao Programa Nacional de
Saúde do Brasil e a presença de "joint ventures" no Brasil nos setores de tecnologia de informação.
A presença de empresários na delegação do Ministro Yashwant
Sinha é indicativa do apoio que o Governo indiano vem
concedendo às iniciativas do setor privado. A adoção de programa de mistura de
etanol à gasolina adotado pela Índia, semelhante ao PROALCOOL, veio acrescentar
possibilidades de cooperação bilateral, em termos de bens e serviços.
14. Concordaram os Ministros em que as relações econômicas e comerciais deverão
ganhar dinamismo adicional com a assinatura, em futuro bastante próximo, de dois
instrumentos entre o Mercosul e a Índia: o Acordo-Quadro e o Acordo de
Preferências Tarifárias Fixas, a serem celebrados, respectivamente, em junho
próximo e no segundo semestre de 2003.
15. Os Chanceleres expressaram empenho na continuação dos entendimentos que
visam à cooperação científica e tecnológica entre o Brasil e a Índia em áreas
já identificadas, nas quais ambos os países contam com contribuições
relevantes. Essas áreas são: tecnologia da informação, biotecnologia,
especialmente no campo da saúde e medicina, agricultura e genômica.
No setor espacial, referiram-se ao memorandum de
entendimento espacial em vigor entre os dois países e as perspectivas de virem
a ser lançados micro-satélites científicos brasileiros por
veículos lançadores indianos.
16. Tendo em vista a necessidade comum de promover o desenvolvimento social das
populações brasileira e indiana, os dois Ministros concordaram em estabelecer
intercâmbio sistemático de experiências em matéria de saúde, educação, geração
de empregos, combate à fome e à desnutrição, assistência social, entre outras.
17. Diante da importância e densidade do relacionamento entre os dois países, e
a fim de conferir-lhe maior articulação e dinamismo, os Ministros concordaram
em convocar, ainda este ano, a I Reunião da Comissão Mista Brasil-Índia de
Cooperação Política, Econômica, Científica, Tecnológica e Cultural.
18. O Ministro Yashwant Sinha
convidou o Ministro Celso Amorim a realizar visita oficial a Nova Delhi no segundo semestre deste ano.